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Home»São Paulo»Pesquisadores do Instituto Butantan encontram moléculas com potencial antibiótico em veneno de sapo
São Paulo

Pesquisadores do Instituto Butantan encontram moléculas com potencial antibiótico em veneno de sapo

RedacaoBy Redacaomarço 8, 2026Nenhum comentário4 Mins Read
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Um estudo conduzido pelo Instituto Butantan descreveu as proteínas presentes no veneno do sapo-cururu (Rhaebo guttatus), da Amazônia, e identificou peptídeos (fragmentos de proteína) com potencial para combater bactérias. O artigo foi publicado na Toxicon e contou com a colaboração de equipes da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Centro de Estudos em Biomoléculas Aplicadas à Saúde da Fiocruz, em Rondônia, que cedeu as amostras do veneno.

“Em um contexto de resistência antimicrobiana, a busca por novos compostos antibióticos na natureza é uma estratégia importante para o desenvolvimento futuro de fármacos capazes de combater bactérias resistentes”, destaca o biomédico e coordenador do trabalho, Daniel Pimenta, atualmente pesquisador do Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantan. A pesquisa foi desenvolvida no Laboratório de Bioquímica, também do Instituto, onde o cientista atuou por quase 20 anos.

Nos sapos, o veneno é armazenado em glândulas localizadas na pele. Ele age como um “escudo”, protegendo o animal não só contra predadores, mas também contra possíveis agentes patogênicos presentes no ambiente – vírus, bactérias, fungos. Por ter essa dupla função, a secreção cutânea de anfíbios, de modo geral, é composta por elementos com diversos efeitos biológicos, incluindo antibacteriano e/ou antiviral.

Diversos dos peptídeos identificados pelos pesquisadores demonstraram possível propriedade antimicrobiana, a partir de análises estruturais e funcionais feitas in silico, ou seja, com ferramentas computacionais que ajudam a prever ou compreender a função biológica de moléculas.

O sapo-cururu Rhaebo guttatus é nativo da Amazônia (Foto: Carlos Jared)

De forma inesperada, a análise do veneno também revelou a presença de BASP1, uma proteína que até o momento não havia sido identificada em venenos de anuros (ordem que inclui sapos, rãs e pererecas), sendo comumente encontrada no sistema nervoso de humanos e animais. A hipótese dos cientistas é que a BASP1 pode desempenhar um papel na contração e na regeneração da glândula da pele, que sofre um processo inflamatório natural quando o veneno é secretado.

Também foram identificadas proteínas relacionadas à contração muscular, ao estresse oxidativo e à imunidade do sapo-cururu.

“Os resultados demonstram como esses estudos, além de buscar moléculas terapêuticas, também podem ajudar a trazer respostas sobre a biologia básica do animal – quem ele é, o que ele secreta, como ele se defende”, destaca o pesquisador Daniel Pimenta.

A pesquisa foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

O trabalho foi coordenado pelo pesquisador Daniel Pimenta, atualmente do Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantan

Análise minuciosa

Dentro da complexa mistura de centenas de moléculas que compõem o veneno, os cientistas buscaram separar e identificar somente as proteínas – uma análise chamada de proteômica, expertise de Daniel. Para isso, o primeiro desafio foi transformar a secreção viscosa e amarelada em uma solução (mistura homogênea), que é a forma adequada para que os equipamentos de laboratório possam processar a amostra.

Depois, os componentes do veneno são separados utilizando a chamada cromatografia líquida. As frações resultantes são inseridas no espectrômetro de massas, aparelho que analisa cada molécula do veneno individualmente. Ele fornece uma “fotografia” que ajuda a identificar as substâncias presentes na amostra.

“Além de ter contribuído para o conhecimento sobre essa espécie amazônica, que é muito pouco estudada, e ter identificado peptídeos com potencial antibiótico, nós observamos que seu veneno possui muitas semelhanças com o do sapo-cururu do sudeste do Brasil [Rhinella icterica] e com o da espécie introduzida na Austrália [Rhinella marina]”, explica Daniel. 

Os sapos conhecidos como “cururu” são nativos da América do Sul, mas algumas espécies foram introduzidas em países da Ásia e nos Estados Unidos na tentativa de controlar pragas agrícolas.

Pesquisador Daniel Pimenta, atualmente do Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantan

Sapo-cururu ‘espirra’ veneno

Em estudo anterior com o Rhaebo guttatus, conduzido em 2011 em colaboração com o pesquisador científico Carlos Jared, diretor do Laboratório de Biologia Estrutural e Funcional do Butantan, os pesquisadores haviam descoberto que a espécie é capaz de ejetar veneno – o que, até aquele momento, acreditava-se ser um mito. 

O trabalho, publicado na Amphibia-Reptilia, mostrou que o sapo amazônico lança o veneno das glândulas localizadas atrás de seus olhos quando se sente ameaçado. Foi a primeira vez que esse tipo de comportamento foi descrito na literatura científica.
 

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Com informações da Agência São Paulo

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