Com informações da Câmara Municipal de São Paulo
A Comissão de Finanças e Orçamento da Câmara Municipal de São Paulo realizou na noite desta quarta-feira (15/4) uma Audiência Pública para discutir o tema: “O processo de desapropriação do Complexo Esportivo Campo de Marte e da sede do tradicional Samba do Cruz da Esperança”.
O debate atende ao requerimento do vereador Alessandro Guedes (PT), que presidiu os trabalhos. O parlamentar falou sobre a importância do diálogo e lamentou a ausência de representantes do Executivo municipal.
“Marcamos essa audiência para a comunidade debater com a Prefeitura, mas a sociedade está sendo desrespeitada. Ninguém veio nos ouvir. Nós precisamos suspender essa decisão de despejo por parte da administração municipal,”, disse Guedes.
Presidente do colegiado de Finanças, o vereador João Ananias (PT) também defendeu a continuidade do Samba do Cruz. “Aqui é um espaço de cultura, lazer e acolhimento. Precisamos preservar esse local e lutar por ele. Vamos resistir”.
A vereadora Amanda Paschoal (PSOL) participou da discussão. Ela protocolou na Casa o Projeto de Lei 211/2026, que declara como Patrimônio Cultural Imaterial do Município de São Paulo o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança. A proposta reconhece a relevância histórica para a memória da cultura negra paulistana. “Precisamos nos comprometer em respeitar e respeitar a cultura negra e a nossa ancestralidade. Ninguém vai tocar no Cruz”.
Também presente na audiência, a vereadora Luna Zarattini (PT) disse que a sede do “Cruz da Esperança precisa ficar. Nossa luta não pode ser apagada. Aqui é um berço de artistas e atletas. Essa concessão da forma que está sendo colocada, não nos representa. Não aceitamos isso”.
A audiência aconteceu na Rua Marambaia, no bairro da Casa Verde, zona norte da cidade – local onde está o complexo. O espaço é um ponto de referência para a comunidade negra, para a cultura do samba paulistano e ao esporte amador.
De acordo com os frequentadores do local, o caso ganhou repercussão depois de denúncias sobre a proibição do “Samba da Cruz”. Segundo eles, a remoção dos campos de várzea faz parte de um processo de valorização imobiliária na zona norte, já que o Executivo defende a regularização e novos usos para o terreno do Campo de Marte por meio da desapropriação.
Após decisão de desapropriar o terreno, a Justiça deu prazo de 60 dias para que o time de futebol de várzea local desocupe a área. A medida gerou protestos de lideranças comunitárias, que veem na ação uma ameaça ao patrimônio histórico e cultural da região.
Uma das diretoras da agremiação, Keize Oliveira, chamou a determinação de “apagamento cultural”. Ela contou que há décadas são realizadas atividades sociais, culturais e recreativas voltadas à população de baixa renda. “Não podemos deixar que acabem com a cultura do povo preto, com as tradições do samba e com esse local tão especial para nossa comunidade”.
O bailarino Felipe Cirilo também falou sobre a luta pela preservação do local. “Temos que nos defender e lutar contra esses atos de racismo por parte dos governantes. Vamos resistir e lutar pela nossa cultura”.
Danilo de Barros Nunes, superintendente do Iphan-SP (Instituto do Patrimônio Artístico Nacional), lembrou da importância da entidade enquanto patrimônio.
“Eu recebi o pedido de tombamento do Samba do Cruz, mas aqui dentro já tem a capoeira que é patrimônio cultural, além de um terreiro. Temos que proteger e trabalhar pela proteção da cultura afro-brasileira. Precisamos preservar nossos quilombos”, disse Danilo.
Alessandro Azevedo representou o Ministério da Cultura. Ele assumiu um compromisso público. “O papel para somarmos com essa luta. O governo federal está aqui junto aos vereadores para lutar pela permanência do Samba do Cruz”.
Também participaram da Audiência Pública as deputadas estaduais Monica Seixas (PSOL), Paula da Bancada Feminista (PSOL) e Sirlene Maciel (PSOL).
Assista à íntegra do debate aqui.
