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Gordura abdominal está ligada a maior risco de perda urinária em mulheres

RedacaoBy Redacaomaio 10, 2026Nenhum comentário6 Mins Read
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O acúmulo de gordura na região abdominal, especialmente a gordura visceral (aquela que se deposita entre os órgãos), aumenta significativamente o risco de incontinência urinária de esforço em mulheres. A conclusão é de um estudo conduzido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e apoiado pela FAPESP, que identificou essa região como a mais associada à perda involuntária de urina, superando a gordura corporal total. Os resultados, publicados no European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, também indicam que a distribuição da gordura no corpo pode ser mais determinante do que o próprio peso para explicar a condição.

A incontinência urinária de esforço é caracterizada pela perda involuntária de urina em situações comuns do dia a dia, como tossir, rir, carregar peso ou praticar exercícios. “É aquela perda urinária que acontece quando aumenta a pressão dentro do abdômen e o assoalho pélvico não consegue segurar”, explica Patricia Driusso, professora de Fisioterapia em Saúde da Mulher da UFSCar e orientadora do estudo. Apesar de muitas vezes ser associada somente ao envelhecimento, a condição não é exclusiva de mulheres mais velhas. “Acontece com mulheres de todas as idades, incluindo até as que são muito jovens. Essa musculatura do assoalho pélvico é pouco trabalhada ao longo da vida e, sem treinamento adequado, pode ficar fraca e perder função”, afirma.

O trabalho faz parte de uma linha de pesquisa mais ampla sobre disfunções do assoalho pélvico que incluem, além da incontinência urinária, problemas como incontinência fecal, prolapso de órgãos pélvicos (quando estruturas como útero e bexiga descem pelo canal vaginal), disfunções sexuais e dor pélvica crônica. Nessa etapa, os pesquisadores decidiram investigar especificamente a relação entre a distribuição da gordura corporal e a perda urinária. O estudo foi conduzido pela fisioterapeuta Ana Jéssica dos Santos Sousa, primeira autora do artigo, em parceria com a Western Michigan University, nos Estados Unidos.

Para chegar aos resultados, foram avaliadas 99 mulheres entre 18 e 49 anos, recrutadas na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo. O estudo focou exclusivamente em mulheres porque a incontinência urinária é significativamente mais comum nesse grupo. Nos homens, o problema costuma estar associado principalmente a cirurgias de próstata, enquanto nas mulheres há múltiplos fatores envolvidos, como características anatômicas, gestação, menopausa e maior sobrecarga sobre o assoalho pélvico.

As participantes não precisavam ter diagnóstico prévio de incontinência e apresentavam índices de massa corporal (IMCs) diversos, o que permitiu comparar diferentes perfis. Elas passaram por um exame chamado DXA, considerado padrão-ouro para análise da composição corporal, capaz de medir não apenas a quantidade total de gordura, mas também sua distribuição em regiões específicas do corpo.

Os pesquisadores analisaram a gordura total, a gordura abdominal (androide), a gordura da região ginecológica (ginoide) e a gordura visceral. Além disso, aplicaram questionários validados para identificar a presença de incontinência e avaliar o impacto dos sintomas na qualidade de vida das mulheres. Cerca de 39,4% das participantes relataram episódios de perda urinária, número compatível com estimativas internacionais.

“O problema é frequentemente subnotificado, mas mesmo poucos episódios de perda urinárias já indicam que o mecanismo de continência não está funcionando adequadamente”, alerta a professora, ao ressaltar que muitas mulheres acabam normalizando pequenos escapes, achando que são episódios isolados.

Impacto da gordura visceral

Os resultados mostraram que mulheres com maior quantidade de gordura corporal tinham mais chance de apresentar incontinência. No entanto, o principal achado foi o papel da gordura visceral: a presença desse tipo de adiposidade elevou em cerca de 51% a probabilidade de incontinência urinária de esforço. “Esse foi o fator mais fortemente associado. A gente imaginava que a gordura da região ginecológica, por estar mais próxima do assoalho pélvico, teria maior influência, mas o que apareceu foi a gordura visceral”, afirma Driusso.

De acordo com ela, a possível explicação envolve diferentes mecanismos. O primeiro é mecânico: como a gordura visceral se acumula dentro da cavidade abdominal, ela aumenta a pressão sobre os órgãos internos e sobrecarrega o assoalho pélvico, estrutura responsável por sustentar a bexiga e controlar a saída de urina. “O excesso de peso nessa região gera uma sobrecarga constante. Com o tempo, essa musculatura pode se tornar mais fatigada e menos eficiente”, explica a pesquisadora.

O segundo mecanismo é metabólico. A gordura visceral não funciona apenas como um depósito de energia, pois ela é metabolicamente ativa e libera substâncias inflamatórias que circulam pelo organismo. Esse processo pode comprometer a qualidade muscular e reduzir a capacidade de contração, inclusive dos músculos do assoalho pélvico. “A gente fala em uma inflamação crônica de baixo grau, que vai afetando diferentes tecidos do corpo. Isso também pode contribuir para o enfraquecimento muscular”, diz a professora.

Além disso, a obesidade já é reconhecida como um fator de risco para a incontinência urinária, ao lado de envelhecimento, menopausa, número de gestações e condições do parto. No caso do parto, Driusso faz um alerta: “O problema não é o parto em si, mas a assistência obstétrica. Intervenções inadequadas, como a episiotomia [incisão cirúrgica realizada no períneo, região muscular entre a vagina e o ânus, durante o parto normal para ampliar a abertura vaginal], podem aumentar o risco de disfunções do assoalho pélvico”, afirma.

Prevenção e tratamento

De acordo com Driusso, o estudo traz uma contribuição importante ao mostrar que não apenas o excesso de peso, mas a forma como a gordura está distribuída no corpo pode influenciar o desenvolvimento do problema, inclusive em mulheres com IMC dentro da faixa considerada normal. Mas por se tratar de um estudo transversal – que analisa os participantes em um único momento – os pesquisadores não podem afirmar relação de causa e efeito, apenas que existe uma associação entre os fatores. Ainda assim, os achados ajudam a orientar estratégias de prevenção e cuidado.

Uma das principais formas de tratamento é o fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico, por meio da fisioterapia. “Hoje temos alto nível de evidência de que o treinamento dessa musculatura é eficaz. É o padrão-ouro para tratar a incontinência urinária de esforço”, afirma Driusso.

Segundo ela, o acompanhamento profissional é essencial, já que muitas mulheres não conseguem realizar corretamente a contração desses músculos sozinhas. “Cerca de 30% das mulheres não conseguem contrair adequadamente sem orientação. Algumas fazem o movimento contrário, o que pode até piorar o quadro”, explica. O treinamento, quando bem orientado, pode trazer melhora significativa em cerca de três meses. No entanto, como qualquer outro grupo muscular, o assoalho pélvico precisa ser exercitado continuamente. “Se parar, perde força. É um cuidado que deve ser mantido ao longo da vida”, diz.

Os pesquisadores já planejam os próximos passos da investigação, incluindo o uso de ressonância magnética para avaliar a presença de gordura infiltrada diretamente nos músculos, um fenômeno conhecido como mioesteatose. Também estudam se mulheres com obesidade podem se beneficiar de protocolos específicos de treinamento.

Para Driusso, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre o tema, ainda cercado de tabu. “A incontinência urinária impacta a qualidade de vida, limita atividades e muitas vezes é silenciosa. Mas tem tratamento e tem prevenção. O mais importante é que as mulheres saibam que não precisam conviver com isso.”

O artigo Which body region’s fat accumulation increase the risk of stress urinary incontinence? pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S0301211526000230.

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Com informações da Agência São Paulo

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